Quando por aqui passares, quero que te apercebas que um dia também já não te lembrarás do dia zero. Existiu, mas ficará tão perdido como este. Terás que ir a um sótão, a uma cave, a uma garagem, a um baú, a um caixote, para o encontrar. Ficará perdido no meio de todos os dias em que choraste pelo dia menos um. Ficará perdido no meio de tudo que usaste para contrariar a angústia. Ficará perdido nas pessoas que não queres voltar a ver nunca mais. Ficará perdido nas músicas que deixarás de ouvir. Ficará perdido no meio de todos os gestos que os teus amigos te dedicaram. Ficará perdido no meio de todas as palavras bonitas que encontraste. Ficará perdido nas tuas vitórias. Ficará perdido nos teus romances. Ficará perdido nos dias de sol, de mar, de água, de flores, de pop, de algodão que entretanto virão. Ficará perdido numa grande paixão. Ficará perdido no amor. Ficará perdido numa alegria emergente. Ficará perdido na tranquilidade que se dará finalmente à bomba que agora te parece quase desfeita de tanta mágoa. E nessa altura eu vou-te lembrar deste dia. Do dia quinze.
29.7.11
8.7.11
5.7.11
30.6.11
Stop se não lhe causar muito incómodo
Ontem estive envolvida na mais recreativa operação stop da minha vida! Ao sair da A1, eram cerca de duas horas da noite, vi ao longe o aparato policial que há sempre nestas operações e a indicação para que encostasse. Se à partida já não é muito entusiasmante parar numa operação stop, muito menos o é quando se está a chegar àquelas horas a casa, se esteve a trabalhar, se tem sono e é necessário levantar cedo no dia seguinte…
E nós – eu e os meus queridos sócios – não sabíamos, mas ainda pode haver pior do que ser mandado parar àquela hora, cansados e com sono. Podemos ser mandados parar àquela hora, cansados e com sono, para a primeira operação stop de meia dúzia de gê-éne-érres que deverão estar a vestir a farda pela primeira vez.
Enquanto à minha esquerda a única mulher da companhia me batia a mais maquinal continência, do lado direito, em cima do passeio, podíamos ver uns cinco ou seis jovens, imberbes e franzinos, que se alinhavam como os pinguins à beira mar no pólo norte, mas com o semblante assustado de quem acabou de chegar numa carruagem a auschwitz e não sabe bem o que lhes espera.
Dentro da viatura, dividiamo-nos entre o desespero de irmos servir de cobaias àqueles jovens e a vontade de rir – que por vezes se transformava mesmo em sorrisos demarcados – por toda aquela ambiência pitoresca.
A menina - que fugiria a correr se eu lhe mandasse um grito - pediu-me formalmente “os seus documentos e os da viatura” e ficou a observar a minha carta e o cartão de cidadão enquanto eu procurava os documentos do carro. Entreguei-lhe o documento único, o comprovativo da inspecção e o seguro e enquanto ela tentava coordenar nas mãos tanto papel e plástico chegou, do outro lado da estrada, um mais experiente GNR que lhe veio dar indicações de como deveria agir. Levou-a para a frente do carro para que confirmasse com os documentos de que se tratava realmente da viatura em causa nos mesmos e abeirou-se dos pinguins à nossa direita dando-lhes indicações de procedimento, enquanto a assustada menina regressava à minha esquerda, com todos os documentos empilhados na palma da mão e me perguntava, bebeu alguma coisa?! […] Não?! Então pode-me mostrar o triângulo e o colete, por favor?! [Nem vamos imaginar o que ela quereria que eu lhe mostrasse se tivesse bebido.] Fomos à mala e mal ela vislumbrou o triângulo, quase culpabilizando-se por nos ter feito sair do carro, disse logo que não precisávamos de o tirar. Mala fechada e eu sentada novamente ao volante, agradeceu e desejou uma boa viagem enquanto do lado direito lá continuavam os pinguins muito hirtos e talvez já a desconfiar que lhes esperava um resto de vida de trabalhos forçados. O GNR veterano acenou-nos um trejeito de agradecimento envolto num sorriso de professor grato por termos ajudado as suas crianças. E nós seguimos viagem em sorrisos, por finalmente se poder comentar aquele episódio. Nos quilómetros que me levaram a casa, fui acompanhada por um sorriso e a imagem - quase fofa - dos pinguins assustados à direita da viatura.
28.6.11
26.6.11
hello world
prepotência
s. f.
1. Poder superior.
2. Abuso do poder ou da autoridade; acto! despótico.
déspota
(grego despótes, -ou, senhor, amo, déspota)
(grego despótes, -ou, senhor, amo, déspota)
s. 2 g.
1. Pessoa que governa conforme lhe apraz os que lhe são dependentes, exigindo-lhes obediência passiva. = tirano
adj. 2 g.
2. Que não tolera que a sua vontade seja contraditada.
3. Que revela autoritarismo. = autoritário, tirânico
23.6.11
tenho saudades vossas
«Hoje, na Bertrand, peguei num Moleskine e comecei a folheá-lo. Virei, umas atrás das outras, as folhas vazias e, apesar de parecer estranho não estar propriamente a ler, havia um certo conforto na ausência de informação. Pelo menos, tinha a certeza de não me estar a escapar nada. Olhei com cuidado para cada página e, num ou noutro momento, pareceu-me ver qualquer coisa, um minúsculo ponto pairando no imenso vácuo. Impurezas do papel? Talvez. Provavelmente, apenas os olhos pregando partidas. À medida que avançava, confesso que fiquei um pouco embalado pelo ritmo constante do meu progresso. Terminei satisfeito, sem um pingo de informação nova, é certo, mas descansado. Cinco minutos retemperadores, em que não experimentei as provações do mais pequeno estímulo intelectual.
Desculpem, agora me apercebo... Eu escrevi "Moleskine"? Lamentável lapso. Queria escrever "Mudar", o último livro de Pedro Passos Coelho (em 1.º, no top da Bertrand).»
Livros, pelo French Guard n' O Incontinental há 17 meses atrás
21.6.11
Para quê um ministério...
«Vejam como a política europeia continua a negligenciar lastimavelmente não apenas o cinema como a cultura em geral. Sim, este é o cimento, a cola que liga as emoções europeias.»
Wim Wenders em entrevista ao Expresso [Única] a 24 de Março de 2007
20.6.11
monsieur brainwash
«Mr. Brainwash is a force of nature, he’s a phenomenon. And I don’t mean that in a good way.»
Banksy
11.6.11
9.6.11
não tenho nadinha que calçar #60 da Hermès
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Vans Slip-On x Hermèso resto da colecção que o senhor robert verdi desenhou para a hermès! |
literatura insustentável
Pela primeira vez na vida desisti de ler um livro. Por vezes acontece os livros desapontarem-me, não sentir o entusiasmo fervilhante de ler mais uma página. Não é comum, mas acontece. Ainda assim, um livro lê-se sempre até ao fim! Mas desta vez não consegui… gosto muito do Bret Easton Ellis. Já li outros livros dele, mas neste, a ¼ do livro – quando se dá o primeiro homicídio da narrativa -, desisti oficialmente. Gosto da forma como escreve. Gosto dos ambientes urbano-selváticos. Até aguento bem o choque que por vezes provoca nas minuciosas descrições de actos horrendos, mas desta vez não consegui. No domingo – depois de votar! – deitada ao fim da tarde na areia da praia, fechei o livro que decidi não mais abrir. Eu sabia que o psicopata americano assassinava pessoas. Estava preparada para isso [não, nunca vi o filme]. A forma cruel como ele se abeirou do sem-abrigo e o gozou, ainda foram suportáveis. A maneira monstruosa como o foi torturando antes de o matar já começou a ser demasiado impressionante para mim. Quando, pisando, partiu impiedosamente as patas dianteiras do cão dele, não aguentei mais. Fechei definitivamente o livro…
6.6.11
26.5.11
22.5.11
o amor não é cego! tem a vista obstruída...
Francisquinha: Mamã amo-te tanto!
Nelly: Que bom, sabes o que significa amar Francisca?!
Francisquinha: Sim mamã, é ter o coração nos olhos!
[enquanto não tenho filhos, vou vivendo das glórias dos filhos dos outros!]
19.5.11
amanhã, num mercado negro próximo de si
b i r d s a r e i n d i e ![]() |
| Pour des dents d’un blanc éclatant et saines, Jeroen Diepenmaat, 2005 |































