Apanhou-me de surpresa pelo fim da manhã a morte do meu amigo José Braga. Durante bastantes segundos fiquei incrédula imaginando que fosse um equívoco. Mas não era…
O Braga foi-se embora… E ainda que muitas pessoas não conhecessem o Braga, deviam, porque o Braga foi um dos maiores radialistas portugueses! Reconhecido pelos da área, admirado por todos.
O Braga podia ser meu pai, porque tinha idade para isso! Mas teria sempre de ser meu irmão, porque… era o Braga! E quando a sua loucura extravasava, eu era quase mãe a tomar-lhe atenção aos exageros!
O Braga era uma enciclopédia de música, a mais completa! Mas era sobretudo uma enciclopédia de vida! E os abraços?! Os [a]braços apanhavam-me quase pelo pescoço, apertavam-me e afagavam-me a alma. O Braga gostava de mim, que eu sei! E as suas manifestações de carinho eram constantes! Quer nestes abraços feitos de encontros casuais, quer nos corredores que entre-cruzavam as nossas segundas casas. Mas também pelas mensagens e referências com que me brindava regularmente. Música, livros, filmes, séries. Tudo de topo.
Chateava-me com ele quando acabava de repente com os seus blogs! Mas aguardava o próximo, que seria sempre melhor!
Quando me disse que ia abandonar a rádio, não acreditei. Não o levei a sério. Acho que ainda hoje estava à espera do seu regresso, que nunca imaginei tão demorado.
E os gatos?! Partilhávamos histórias e imagens do Atum e do Kafka! O Kafka Leonardo! Um senhor gato! Um senhor gato cuja entrada na idade sénior foi alvoroçada por Elvis Ratinho, há meia dúzia de anos atrás! Donamiga! Era o que ele dizia que eu era para o Atum! Donamiga!
José Braga, um grande mestre, que não acreditava em mestres! Um dadaísta! Um louco! Um génio!
O eterno Hugo Panzer, co-autor do meu programa de rádio favorito! Abridor de horizontes musicais!
A voz!
Mister B., meu companheiro de longas noites [longas].
J., sempre com uma palavra reconfortante naqueles momentos em que eu ia mais abaixo do que ele gostava.
As madrugadas eram dele. E por isso, muitas manhãs acordei com as suas palavras.
Gabava-me as nuvens. Tratava-me em francês e em inglês. Era mademoiselle e sua dear! Era sua querida e sua amiga. Era a F.
Partilhávamos O’Neill e ele sempre me pediu que fotografasse mais a preto e branco. “A imaginação faz o resto. Para tanta cor basta olhar para este mundo à nossa volta…”
O Braga tocou a vida de tanta gente… Haverá algo de melhor para deixar?!...
As homenagens multiplicam-se nas redes sociais e eu só me consigo sentir uma merda, porque não o procurei durante tanto tempo… durante tempo demais…
Lembrava-me dele. Porra. Ainda a noite passada à procura de livros na minha estante olhei para um enorme livro que me ofereceu e sorri . Sorria muitas vezes ao lembrar-me dele! E nunca neste tempo fui capaz de lhe enviar um e-mail, de o convidar para um chá de lhe perguntar porque andava ele tão ausente. Deixei-o partir assim… é um massacre ainda maior, que com certeza me fará aprender alguma coisa.
Adoro-te, Braga! Desculpa não to dizer há tanto tempo…
























